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| Foto: GettyImages |
Recentemente, em diversas localidades do país, membros da Frelimo realizaram manifestações, alegadamente em celebração à vitória anunciada pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), uma vitória que muitos consideram falsa. A questão que se impõe é: quem deu autorização para esses atos?
É essencial saber se existem documentos que comprovem a comunicação dessas manifestações às autoridades competentes e o respectivo despacho. Para entidades que não estão ligadas à Frelimo, a prática comum exige um pedido de autorização prévio ou, no mínimo, uma notificação à autoridade local, que determinará o trajeto e o horário do evento. Essa discrepância no tratamento é uma clara forma de discriminação.
Desde o início da onda de contestação aos resultados eleitorais, que culminou no trágico assassinato de Elvino e Paulo, a polícia respondeu de forma violenta a manifestações pacíficas, alegando que eram ilegais. Até mesmo atos simbólicos, como a colocação de flores em locais de crime, foram reprimidos. Essa brutalidade resultou em mortes, feridos e vandalismo, evidenciando uma abordagem policial marcada pela violência desproporcional.
Por que as manifestações da Frelimo são vistas como mais legítimas do que aquelas de outros partidos ou da sociedade civil? Em Mecanhelas, no Niassa, por exemplo, a Frelimo é autorizada a se manifestar, enquanto os outros grupos não têm esse direito.
Essas manifestações, anunciadas pela porta-voz da Frelimo, parecem uma provocação ao povo que clama por justiça em relação aos assassinatos de Elvino e Paulo. Essa atitude reflete uma arrogância de quem se considera o dono do país.
A discussão sobre paz e respeito às instituições frequentemente não se reflete em ações concretas. A paz é sustentada pela justiça, e as instituições que deveriam ser respeitadas perderam sua credibilidade ao se envolverem em práticas imorais e desonestas.
Dentro da elite dirigente e entre seus apoiadores, incluindo a polícia partidária, percebe-se uma hierarquia entre moçambicanos, onde alguns têm liberdade de manifestação, enquanto outros são silenciados. Essa situação não pode ser normalizada. Moçambique é uma nação de todos, e não podemos ser tratados como visitantes em nossa própria terra.
É urgente que deixemos de lado o desprezo da elite por nossa população. A pobreza, a ignorância e o descontentamento são consequências de décadas de descaso. A repressão não trará solução; somos muitos e não se pode conter a insatisfação por meio da violência.
Devemos abandonar a ideia de exclusão por divergências. Precisamos reconhecer que Moçambique é uma casa comum que nos une. Discordâncias são naturais, mas não devem levar a mortes ou perseguições.
Não podemos sair desse processo sem uma verdadeira catársis coletiva. Precisamos construir um futuro melhor, abandonando práticas prejudiciais.
Não há paz sem justiça, e não há justiça sem verdade. A verdade deve guiar nossas ações. É fundamental que sentemos e dialoguemos como moçambicanos. O tempo perdido é tempo em que estamos perdendo nosso país.
Exigimos justiça por todas as mortes injustas e desnecessárias. Queremos justiça por todas as arbitrariedades. Queremos justiça eleitoral. Queremos o nosso país de volta.
Fonte: Fátima Mimbire
